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Tertúlia da Pharmácia nº 5

  • Dr. Joachim Lemos de Noronha

  • |
  • 2018-09-13

“Que licor, Senhor doutor!”

Caros amigos e ilustres colegas,

já aqui falámos do manipulado mais famoso do mundo tornado refrigerante, a Coca Cola®.

Trago-vos hoje a história, ainda que resumida, do manipulado que se tornou na bebida de Portugal. Tudo terá começado nos idos finais do séc. XIX, quando um caixeiro viajante, de seu nome Luiz de Pinho, comerciante de vinho do Porto, passando por terras da Lousan (assim se denominava Lousã) se enamorou de amores pela filha do pharmacêutico da vila.

O namoro rapidamente deu em casamento.

Além dos habituais manipulados segundo os preceitos das pharmacopeias e códigos galénicos, a pharmácia dispunha também no seu “vademecum” elixires de origem natural, com algum teor alcoólico, entre os quais um que tinha a função de aliviar enfermidades de nível digestivo em geral e do bucho (estômago) em particular, bastante popular na altura na região daquela Beira.

Em 1910 porém, houve um volteface na questão comercial dos elixires na pharmácia, pois era publicado um decreto lei que proibia a comercialização de produtos alcoólicos naqueles estabelecimentos de saúde.

Com esta restrição, Luiz de Pinho, o genro do pharmacêutico, vislumbrou uma oportunidade de negócio numa pequena indústria local, onde instalou um processo de automatização de produção de licores, mantendo as mesmas receitas e processos artesanais originais anteriormente desenvolvidos pelo seu sogro pharmacêutico.

Foi nessa altura que o elixir foi “promovido” a licor.

O licor ainda não tinha sido baptizado, até que alguém sugeriu: “chamem-lhe Beirão, Licor Beirão!”

A ideia surgiu em 1929, onde a marca (ainda antes de o ser) ganha o seu primeiro prémio, após o 2º Congresso Beirão de Castelo Branco.

Em 1940 Luiz de Pinho colocou a fábrica à venda e José Carranca Redondo (considerado por muitos o primeiro marketeer português e pai do marketing em Portugal) que lá trabalhava desde os seus 12 anos, não se fez rogado e questionando a namorada de então disse: “se casares comigo invisto todas as minhas economias e mais algumas e compro a fábrica!”.

O contrato do negócio foi redigido a 11 de março de 1940 e o do casamento no dia 5 de outubro do mesmo ano.

José Carranca Redondo foi o denominado visionário e empreendedor à frente do seu tempo.

Dos cerca de 70 produtos e marcas que a empresa produzia na altura, somente 3 marcas sobreviveram à venda da empresa entre as quais o Licor Beirão®.

Ele mesmo se fazia à estrada de noite pelo país inteiro a “disseminar” os seus cartazes publicitários.

Não perdia a oportunidade de ser polémico e mesmo provocador. Em pleno Estado Novo, teve a ousadia e o desplante de publicar e imprimir a seguinte publicidade: “Licor Beirão, o Beirão de quem todos gostam...”. Esta frase fazia uma clara alusão ao então presidente do conselho Prof. Doutor António de Oliveira Salazar, Beirão nascido em Santa Comba Dão. Aconteceu que Salazar achou piada ao humor descarado e deixou seguir sem lápis azul ou outras consequências.

Frases como: “Que licor, senhor doutor!”, “Que licor porreiro, senhor engenheiro!”, “Que licor feliz, senhor juiz!”, “Que licor divinal. Senhor general!” ou “Que licor, senhor prior!” inundaram o país de norte a sul e este a oeste.

Carranca Redondo também nacionalizou o seu Licor com a frase: “Licor Beirão®, O Licor de Portugal!”

Hoje em dia o Licor Beirão® tem 50% da quota de mercado na categoria licores. A marca tem 99,9% de notoriedade, produz até 30.000 garrafas/dia, tem 3,5 milhões de garrafas vendidas anualmente e um stock médio de 1 milhão de litros de Licor Beirão®!

É caso para se dizer:

“Mas afinal, o que é que se bebe aqui??!!”

A todos os que me lêem desejo as melhores felicidades no cumprimento do dever pharmacêutico e deixo-vos um sincero e entusiasta cumprimento “galénico”.

Saudações Tertulianas

O Pharmacêutico

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